terça-feira, 16 de outubro de 2007

4.0 7

Não sei se o quadro que pintei era no todo que estava a beleza, ou se era ela que produzia uma luz tão clara que fazia do dia tão lindo. Meus olhos deviam estar preparados para o vento quase fresco da manhã, meu ânimo jogava para cima uma certa alegria que podia vir de um tudo, da viagem diária, do azul que, deitado como um lençol sobre nossas cabeças, fazia transparecer as cores, de toda a multidão sonolenta que caminhava lentamente e passava por mim.
Ela levava uma flor de pano no casaquinho leve de lã. Foi aquele colorido da flor que me chamou tanta atenção. Depois, seus cabelos pretos, os óculos por demais grandes que a tornavam enigmática e escondiam o que de mais lindo ela poderia ter. Óbvio, me ignorou, passou, e com ela um ar de novidade me foi invadindo. Há quanto tempo não me levantavam assim do chão?
Neste tempo lento em que eu enxergava tudo, na hora do dia cedo com o sol convidando para uma vida muito mais grandiosa na calmaria, no entender os gestos serenos de tudo quanto é natural e não-humano, ela andava firme, com pernas que eu queria esconder de minha lembrança; andava apressada, impossível no meu ritmo. Eu não podia segui-la, só pensar que a veria de novo, de novo com uma flor no casaco, que ela não tiraria, de novo com uma nova flor refeita de cores e de panos.
Eu queria que os dias ficassem assim na suspensão da altivez dela, perdido entre o escuro das lentes, descobrindo um horizonte que ela guardava no caminho entre os dois olhos escuros. Era a boca, o nariz, a orelha, o pequeno defeito no rosto que puxava de um lado o sorriso, o rolar o cigarro entre os dedos enquanto ficava ali, pensativa, deixando escorrer beleza. Tão altiva que não se podia dizer que era linda. Em mim tudo era silêncio, uma quietude que queria gritar. Mas eu não alcançava a voz certa, o tom, a placidez que abriria a flor do casaco de lã.
O que me restava era um pouco de desespero. Eu não podia continuar no mundo, não neste mundo onde o desejo não podia ser alimentado e que, por isso, se tornava ainda mais forte e necessário. Passava pelas padarias encobertas pela manhã, tomava uma vitamina, um pão com manteiga na chapa; e ela seguia o rumo do trabalho, esvoaçando um vestido estampado de cores leves. Ah! A quanta amargura a beleza nos condena, como ela nos faz estar entre detritos de nós mesmos, e tudo o que queremos é nos deitar a seu lado, quietos, como deuses que pudessem acariciar montanhas ou porções de oceanos.
Silenciosa, talvez ela tivesse um pedaço de vida a me emprestar por algumas horas. Mas como meu peito suportaria seu peso? Como meus olhos poderiam se aquietar? Como toda minha pele poderia evitar a luta, a guerra, as batalhas? E a minha gastrite, como a tornaria infeliz e insípida diante do que eu via e insistia em tocar! Mas estas são as trocas do mundo, senti-lo, por mais fraco que seja, nos releva a uma condição que é estar nos dois pontos do fio cuja tensão se fortalece dia a dia, vida a vida.
Minhas lembranças se impregnaram com tudo o que aquela flor de pano escondia. E eu respiro um mistério envolto em fumaça de cigarro, sinto no pulmão um respirar que tem pedaços dela, lâminas finas que me cortam os alvéolos e me trazem uma delícia pulsante. Dói. Mas quais as dores que já trago envolvidas no estômago que não me doem? Qual a vida repleta de sentido que não tenha lá intensos conflitos e que não possa suportar os arranhões na alma?

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

4.0 6

O que eu mais estranhei não foi propriamente o meu pai ter morrido. Ele estava lá em Fortaleza com seu pulmão arfando feito uma sanfona mais que usada. Judiou muito dele. Não havia panos molhados que dessem conta daquele cheiro forte de substâncias químicas queimadas. O enfisema, que ele chamava de fimose, já dera provas de sua força havia um bom tempo. Pega, tira ele do apartamento apertado e sem sol, tira dos mofos e das baratas, amontoa os livros, a coleção completa do Dostoievski em papel bíblia que se perdeu. Ele havia prometido para meu irmão e eu senti um ciúme desgraçado. Meu irmão nem terminara “O idiota” – nem terminaria, o livro está comigo até hoje – porque iria ler a obra completa? Televisão, duas geladeiras, fogão grande e uma sujeira desgraçada.
Há anos eu pensava que chegaria a notícia. Eu me afastava. E hoje me pergunto do que me afastava? O que me empurrava para longe dele? Talvez sua morte me afastasse mais do que sua vida repleta de sonhos, talvez a notícia inevitável me afastava de seus cabelos bem branquinhos, dos dentes pendurados no final da vida, silvando em algumas sílabas.
Ele foi enterrado em Arujá, aqui perto de São Paulo. Um campo aberto, alto, sem cruzes, tudo verde. O dia estava chuvoso, uma água fina caía e descaía, abria um azulzinho aqui, uma nuvem rala que se esgarçava dando a impressão de sumir. Foi tudo rápido. Pouca gente, pouca família.
Voltei para casa, passei numa locadora. Disse à garota que me atendeu que eu acabava de voltar do enterro. Ela ficou um pouco perplexa. Eu lá, escolhendo um filme. Nada dramático, algo mais leve, uma comédia à la Woody Allen me faria bem. Eu não sentia nada. Não sabia direito o que deveria sentir. Tempo chuvoso, filme de locadora, alguma comida na geladeira. Meu cachorro pulava em mim sem saber de nada e eu beijei suas orelhas muitas vezes.
Como eu disse, não estranhei a morte de meu pai. Estranhei foi o urubu que entrou na garagem de casa e de lá não saía por nada. Joguei água. Ele voltou. Espantei com a vassoura. Ele voltou. Deixei que ficasse. Empoleirou-se no canto de uma floreira de concreto. Não conseguia voar, precisava de abrigo até morrer, talvez. Estava doente, era visível. Todo urubu tem lá seu jeito desengonçado, meio manco, pulando, mas este tinha as penas ensebadas de doença. E não tinha o menor medo do cachorro, que chegava de mansinho e saía correndo assustado de um tipo de berro que o pássaro dava, rascante, gutural, única força que lhe sobrava.
No dia do enterro de meu pai, um urubu pousou em minha casa, dormiu a noite toda sob minha janela, doente das asas, filtrando alguma dor. Não entendi o recado de tanta insistência. Nunca um animal desconhecido havia sido tão solidário comigo.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

4.0 5

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Minha poesia favorita. Tudo era revestido de uma película de proteção. Ficar quieto, obediente, não falar o que não se devia aos adultos. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. De criança, a gente se virava, falando palavrões bem gordos, e corríamos em campos de futebol improvisados, no meio da poeira e do mato, com carrapichos grudados nas meias. Ficávamos horas – o que eram as horas? – tentando alcançar o córrego, cortando a pele em capim-gordura. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Heroísmos bem próximos, íntimos, como pular um muro alto ou fugir de um cachorro, roubar abacates e não olhar pra baixo. Eu tinha lá os meus medos. Medos de todos os alertas dados pelos meus poros. Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo. E íamos aos becos escuros, com carros estacionados no silêncio, gritar para assustar os namorados. Jurávamos ter visto uma felação. Um chupando o outro. Era assim que eu não conseguia imaginar como era possível, como se enfiava aquele troço no outro troço. Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu arrotava a arrogância de saber de tudo um pouco. Pelo primo mais velho. E não sabia nada. Meus deuses eram tão gentes normais que respondiam com grunhidos e me afastavam com as mãos. Na escola, havia os adultos mandando, vigiando o portão principal. Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, As mães diziam que podiam nos castigar fosse o caso de não aprendermos a nos comportar. Alguns professores mais velhos batiam nos nós dos dedos quando da desatenção nossa. Vestígios de algo que se acabaria num piscar. Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, A escola dos professores, o cheiro da merenda, leite em pó e pão e arroz doce. Quem ficava na fila? E era a fila dos menores? E crescíamos tanto em tão rápido tempo! E mais filas que separavam meninos e meninas. E elas riam tanto e eram altas e tinham a volúpia que eu nunca entendia. Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Depois, as aulas. Falar corretamente, calcular, pensar rápido, obedecer. A tarefa pronta para ir à lousa, giz branco, quando quando uma cor azul – que nunca escrevia bem por mais bela que fosse – um amarelo apagado, um vermelho roseado e fraco. Que tenho sofrido enxovalhos e calado, É preciso ter coragem na vida, nesta vida de meninas e meninos que gritam, que explodem seus corações em todos os segundos. Tínhamos que fazer direito. A exposição na frente de toda a sala nos revelava. Fraqueza, desistência, algum desespero que apontava o dedo ditando regras. Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Comportar-se, ser limpo, estes cadernos sujos de dedos sujos. A força ali era ser inteligente. A força no recreio era você ser simplesmente forte. Algum amigo mais ríspido, quieto e troncudo o protegeria. Ou lhe dariam um pedaço de lanche que sua mãe não podia fazer. Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, O menino cujo pai era bravo, diziam da pobreza que causa raiva sobre os filhos, de olhos sempre quase fechados por causa do cenho franzido. Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, E toda criança não seria então um pouco alegre? E era às vezes, mas nunca quando enxugava os olhos. Zagueiro de primeira, pelo corpo forte, as mãos abertas como um lavrador. Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Há presságios na vida, essa coisa de destino que começa a feder desde cedo. Meu amigo nem muito amigo, forte e sem pensar, o queixo duro, os lábios grossos como se lhes faltasse água, e poder ficar um pouco com a cabeça baixa diante da lousa, escura como um lago podre. Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Os olhos mirando o fora, sempre o ir-se de algum lugar. Para fora da possibilidade do soco; No meu calar de boca e no quieto furor, passivo e contido, do menino plantado de cara no verde musgo, abriu-se então o mundo na perversidade mais silenciosa. Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Não saber fazer, calcular, ler com as vírgulas. O que merece um homem-menino, de vez em quando, quando convier às crenças: homem ou menino. Olhar para as mãos de lavrador. Não sentir pena, ódio de não revidar o cuspe da vida. Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Via que a educação podia ser feita à força. Pá!!! Não há nada de mal levar um tapão na nuca, né não?!, amigo menino quase homem lavrador. Foi o que meu soluço pediu no momento. Fica assim estagnado... Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Não saia por aí do meu peito que você não é suspiro, é grito sem nenhuma vogal. Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, Não há som. Como faz um ferro perfurando o crânio? Onomatopéias desnecessárias. Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... E eu pedia cá pra mim não chore, não chore. A boca dele tremia e era um cãozinho tão frágil no meio de olhos vendados, era aqueles passarinhos feios e depenados que caíam de um monte de palha que chamavam ninho. Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Seus olhos começaram a irrigar os lábios grossos e sedentos. Eu podia achar que eram rachados de sol, que rachavam de uma escassez de uma coisa que molha que não é líquida, que não se enxerga. Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; O professor mantinha um quê de respeito e derrota. Mantinha-se como um poste que ergue a mão e dá um tapa na nuca. Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! E havia uma história toda que eram formigas passeando e fazendo tuneizinhos no seu peito de professor. É preciso ser duro, ele diria se pudesse e não fossem tão frágeis suas retinas de cristal. Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quieto diante do problema de matemática. As mães diziam para dar corretivos corpóreos. Assim como uma chinelada macia elas queriam dizer? Não. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Podia ser o que considerassem, assinar um livro preto, ir para fora da sala, ficar parado no recreio. Mas a mão humana tem vontades próprias. Ó principes, meus irmãos, Diziam que podiam fazer as vezes de carrasco. No seu sangue, o professor sabia o que já tinha sido. Arre, estou farto de semideuses! E também eram coisas de destino dele que cheiravam muitas vezes a queimado. Os pêlos longos do braço, a assinatura veloz e potente que treinava por cima dos exercícios. Onde é que há gente no mundo? Em todo espaço e tempo ele se encontrava com o menino homem lavrador de lábios ressequidos e chacoalhava a cabeça. Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? Não, não faço parte disso. É por acaso uma escolha, o tempo, a cidade, os filhos? Poderão as mulheres não os terem amado, E todos os sonhos... Por acaso eu me encontro aqui, com mão firme a guiar meninos e meninas, por acaso eu sei que a minha letra é bonita e minha assinatura é uma marca. Marco pois então sobre os exercícios. Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! Eu não podia ler os pensamentos. Um homem ereto, um menino cabisbaixo. Tudo vai passar. Água com açúcar, arrependimentos. Eu vou aprender. E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, Aprender a me portar. Não precisa me bater. Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Vivo o bastante para querer tudo isso também, postes firmes, mãos na nuca, olhos de vidro. Se for preciso eu fujo. Eu, que venho sido vil, literalmente vil, Tenho conseguido ser um homem. Fico feliz com minha poesia favorita. Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

* Os versos em itálico são a reprodução do “Poema em linha reta”, de Fernando Pessoa.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

4.0 4

Foi quando o mundo me parecia completo. O sexo não era algo para a carne, alimentava mais que isso em mim. O desejo se manifestava em situações grandiosas, sublimes, ser visto como um homem importante, pelas idéias, principalmente. Eu não era nem um pouco ambicioso, o que carrego até hoje e que me anuncia uma vasta derrota a ser amargada mais tarde, quando tudo não passar de miragens que se formaram para eu continuar vivo.
Até à igreja eu ia para agradar minha pequena namorada. Ela já tinha seios formados, que no meu parecer de agora deviam ser grandes e lindos. Éramos adolescentes; eu, dois anos mais velho; ela, com corpo já de mulher. Lembro dos homens olhando-a com fome. Ela fazia sucesso na rua onde morava e eu era o cara que pegava a menina mais gostosa do bairro. Mas isso eu só vim saber mais tarde, quando já não era um adolescente.
Entrava na igreja para não ficar muito longe dela. Sentia-me mal, com freqüência, naquela construção moderna anos 70, redonda... Só me lembro que era redonda a igreja. Não me lembro dos jesuses, dos santos, do sangue, do terror sendo amargado na cruz com vinagre e lanças pontiagudas. Não tinha a demonstração da piedade que os santos têm nas igrejas mais convencionais, escuras e de um cheiro secular. Não me lembro de quadros nem de púlpito. O padre pregava a moral cristã anti-sexo. Eu passava mal.
Ela me dava um seio para eu acariciar. O pecado se mostrava como um monstro maravilhoso no qual estava inclinado a deitar minha cabeça e me consolar. Um dia com um seio numa das mãos, numa rua arborizada à noite, nas sombras da devassidão pueril. Nem sei o quanto eu tinha de porra nutrida para inundá-la, nem me lembro de ficar de pau duro nestas horas. Era como uma religião que eu temia e adorava, que ora me impulsionava para frente, para dentro dela – eu tinha que estar dentro dela, com meu pinto, com seus líquidos, sua pele que pulsava esticada e ficava transparente com veinhas azuladas no contorno do bico –, ora me derrubava com a razão, com meus estudos, com minha educação. Adoeci.
E permaneci doente até o próximo pegar nos seios dela, que me oferecia sem pudor, como um pecado necessário. Havia a aura da religiosidade esmagando meu cérebro, o que estava certo e errado por séculos não podia se mostrar tão assim indiferente nas calçadas por onde eu andava com ela e queria porque queria enfiar minha mão na blusa, passar o sutiã, encontrar quentinho aquele monte de carne macia e dura, a pele frágil dos bicos como se fossem lábios sensíveis e que eu beijaria, se ela deixasse, e que eu esmagaria com as pontas dos dedos ou arrancaria com minha boca. Se ela deixasse.
Até eu vê-la saindo de casa dentro do carro de um cara bem mais velho. E eu passei a acreditar nas besteiras vigentes da economia, da sociedade, tudo porque eu não tinha um carro, mas uma bicicleta da qual nem me lembro a cor.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

4.0 3

Quando eu abri, o porta-luvas estava cheio de cocaína.
Meu pai contava as histórias. Eu ouvia de olhos assustados, principalmente essas das aventuras que ele provavelmente aumentava. Como todo contador de histórias, sonhador, ele ia pela resposta do olhar de quem ouvia. Cada vez era diferente. Às vezes esquecia que havia contado alguma coisa e dizia que nunca havia passado por aquilo.
Os caras tiraram a gente do fusquinha. Ficamos com a metralhadora na cabeça, enquanto um já estava abrindo o porta-luvas.
Eu acreditava em tudo. Porque a crença tem desses mistérios. Também gostava das poesias que ele declamava. Navio Negreiro, I Juca Pirama, umas de um tal Judas Isgorogota.
É um pseudônimo.
Eu pedia que me falasse de uma que tinha um cara que saía de casa com o sol ainda se levantando. Ele ia conversando com o sol e lhe pedindo que dissesse às pessoas porque havia partido. Dizia à mãe, ao pai, aos amigos, e quando chegava na noiva que deixava, ele pedia só para dizer que estava bem. Aquilo me apertava. Sentia a falta que carregava, o silêncio que ia junto com ele. Eu pensava que o amor era aquilo mesmo, aquelas coisas que não combinavam, as palavras que nunca iriam ser ditas, os gestos que atrapalhavam toda a manifestação do amor, a perda que ficaria como uma marca nas ruas por onde nunca caminharíamos.
A gente tava olhando pra baixo do viaduto. Eu pensava “daqui eu caio lá embaixo. Eles nem precisam se preocupar. Uma bala na cabeça e eu me estatelo no asfalto”. Foi ali no Viaduto do Chá.
Nas histórias de meu pai eu nem sentia os tempos de repressão política. A polícia era a polícia, e os que estavam presos eram presos, não pensava em bandidos, mas em algo que haviam feito de mal. Essas coisas não me atingiam. Se me diziam que eu não podia falar certa coisa, eu não falava. Minha mãe pedia para não dizer palavrões porque atraía espíritos ruins. Eu não dizia. Não comer tanto doce na festa de aniversário. Eu não comia. Não fazer feio, respeitar os mais velhos, me comportar na sala de aula, me levantar quando um professor entrava. Tudo perfeito para um perfeito paumandado. E eu cresci assim, como um paumandado. Acreditando nas histórias todas que me contavam, nas estruturas todas que eu teria que sustentar. Os mais velhos, os patrões, os professores. Nasci em meio a um tempo sujo e negro, um tempo de rebeliões, revoluções. Me tranquei na quietude da obediência. Fui um filho de minha terra destes bem adestrados.
Aí eu pensei “É agora que esses filhodasputa nos matam”. O soldado tava abrindo o porta-luvas. Pedi licença. “Põe essa mão na cabeça, põe essa mão na cabeça”. Os caras gritaram comigo porque eu estava levando a mão ao bolso do paletó. Eu precisava mostrar que a gente era jornalista, tirar minha identificação e mostrar pra eles. Eu ia morrer mesmo. “Péra lá, péra lá! Eu só quero mostrar uma coisa. Olha” eles viram que eu pegava o documento. O soldado com a mão no porta-luvas cheio de cocaína do fusquinha. Eles viram que a gente era do Estadão. O capitão mandou que o soldado esperasse um pouco. “Cês tão brincando com a gente? Por que fugiram, caralho? Sabia que podiam ter morrido? Cês tão loucos? Vai, vai, vão pra casa. Mas vão com calma”.
Lógico, meu pai estava ali, contando mais uma história. Não havia morrido, não havia se estatelado no chão embaixo do Viaduto do Chá com uma bala na cabeça. Tudo não tinha passado de uma história de aventura que eu adorava. Todas as histórias me fascinavam e a vida... ia assim, meio de lado, passando ao longe das coisas físicas, ficando nos versos lindos de amor, no heroísmo das invenções.
“Porra, Meninão! Tá louco? Por que essa merda toda aí? Por que cê correu da polícia?” E o Meninão ria. O Meninão só ria.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

4.0 2

Vez ou outra minha mãe nos levava ao dentista. Saíamos de Santo Amaro, da Vila Zelinda, e pegávamos um ônibus até o Centro. Meu pai já trabalhava no Estadão e num prédio cheio de repartições ficava o dentista. Eu não gostava nem um pouco daquilo. O barulho, o cheiro de tinta, as pessoas maiores que eu. Me sentia oprimido. Como se estivesse nestes fossos escuros que via nas ruas, ao lado de prédios; o que era para ser uma espécie de espelho d’água ficava lá, largado aos mosquitos, à sujeira mais suja dos que sujavam tudo, águas cercadas de gradinhas robustas e enferrujadas, e sujas.
Quando acabava a tortura do dentista – pode ser que nem fosse tanto, não me lembro direito se ganhávamos algum doce (santa incoerência, bela) – vinha a melhor parte. Minha mãe nos conduzia até um bar qualquer onde se vendiam coxinhas cremosas. Eram coxas de galinha com uma massa cremosa de farinha em volta. Era um presente pelos momentos raros de irmos ao Centro, ao dentista. Eu me enchia de gordura e segurava a mão de minha mãe. Uma imagem da qual não me lembro mas que invento com meu corpo. É ele quem me diz “era assim, era assim”. Minha mãe bem mais nova, de vestido (quais seriam as cores, os tecidos, as estampas? Eu não me lembro), esperando na sala ao lado.
Hoje eu penso que com cinco filhos pra criar ela vivia meio triste e só. Às vezes brigava com a gente numa impaciência de vida, pensasse se seria isso mesmo o que estava predestinado, pensasse em destino e resignação, no meu pai sumido por dias, meses, no meu pai bebendo a cerveja, fumando os cigarros pela casa. Ela colocava pano úmido nas frestas das portas para que a fumaça não nos atingisse. Mas eu gostava do cheiro da fumaça morta, do cheiro que o corpo do meu pai deixava no quarto. Eu nunca me perguntava porque meu pai dormia numa cama qualquer, porque ele chegava quando a gente já se levantava, porque da sua boca grossa não vinha o cheiro das salivas mortas, mas sim o cheiro que ficava nos cômodos, de bebida amanhecida, cigarro amanhecido, sonhos amanhecidos.
E por estar sempre perto, o cheiro de minha mãe estava sempre em mim. Eu não sentia que pudesse ser um outro odor, estrangeiro feito o do meu pai, eu não pensava que ela sofria. Nem quando nos pegou (eu e meu irmão mais novo) pelas mãos e nos levou até a imobiliária. Talvez ela tivesse chorado quando o homem grande que a olhava com ternura disse que não dava mais para segurar o aluguel. Nove meses de atraso. Isso eu me lembro. Tudo acima de mim, os diálogos, os olhos marejados, a calvície do homem, a alça do vestido de minha mãe, nove meses de atraso de aluguel.Meu coração só conhecia o futuro e eu o apertava entre as costelas, mirrado, medroso. Eu penso que ela poderia ficar um pouco triste com tanto filho pra criar, com tanto marido ausente, tudo misturado, como a vida, como fosse possível rir e chorar num só ponto do dia, num só ponto de passado e do presente que ia ia ia ia...

terça-feira, 4 de setembro de 2007

4.0

Eu me lembro de algumas coisas distorcidas. O sol limpo da tarde, uma moça que nos acompanhava pelas ruas, talvez zombando da gente pequena que éramos, talvez guardando com sinceridade alguma integridade infantil que se soltava toda vez que tirávamos as mãos das dela ou quando eu corria covarde de um lado pro outro sem me afastar.
As casas ficavam fechadas pelo calor. Acho que as crianças de colo dormiam nestas horas de começo de tarde. Focos de fumaça se levantavam aqui e ali num terreno baldio. Queimavam lixo, papel higiênico usado, plásticos, tudo que tivesse sido jogado fora. Minha tia tinha um quintal grande, mal tratado, onde eu assassinava folhas e formigas e depois as enterrava, chorando, pensando na eternidade delas, na minha, na minha vida pouca guiada por espíritos de toda ordem. Podia fazer cruzes de palitinhos de fósforo (o mesmo fósforo com o qual eu queimava as formigas, os mesmos palitos com que eu furava as folhas).
Esse cheiro de queimado está em mim até hoje. Não adianta afastar o nariz ou mudar de rua, ele queima e solta as fuligens, como as canas cortadas em labaredas gigantescas. Eu pegava a bicicleta e seguia por estes cheiros, o de laranja também, nos finais de tarde de verão. Morno, era um cheiro que impregnava toda a cidade. A lua surgia por trás da fábrica de suco de laranja, muitas vezes tão enorme que assustava. Eu percebia que gritava por dentro, pelo sublime, pelo medo de tanta maravilha. Seguia em direção da fábrica, da lua, do cheiro de laranja. Chegava até o córrego sujo, mas onde, ainda, por diversão e ignorância, se pescavam lambaris desnutridos.
Na casa de minha tia, neste mesmo quintal descuidado, havia também um galinheiro. Ela torcia o pescoço de uma ou outra quando íamos almoçar no domingo. Eu não gostava muito, a carne era dura e parecia nadar num molho oleoso de tomate e especiarias. A avó da minha prima, uma velha senhora de uns duzentos anos, com o andar vagaroso, as pernas abertas como se tivesse andado a cavalo a vida inteira, feridas nos braços, o cenho constantemente franzido, dormia no sofá da sala. Não podíamos fazer um barulhinho sequer, por medo mais do que respeito. Os velhos da minha infância eram carrancudos e impacientes e nunca me ensinaram nada.
Eu ia pro quintal, pro meio dos pés de mamona, matar formigas e folhas. Depois eu chorava um prenúncio de começo de vida. Foram os melhores momentos e no entanto eu compartilhava com o silêncio minhas delícias. Não era preciso dizer palavras, só obedecer aos mais velhos e esperar que chegasse o momento.
Acho que chegou.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Mutações

As coisas haviam mudado. E qual foi o tempo na vida em que não haviam mudado? Sempre sentindo justamente o tempo, como algo que passa sem que façamos parte, como um rio onde não mergulhamos, nem a pau!, por medo, receio, miséria de espírito. E os que se jogaram nas águas que cairiam vertiginosamente de alturas impossíveis, foram, junto com a morte, escorrendo em esquecimento e inaptidão de viver.
E havia também esta mudança de nossa própria vida. Mudar de carro, de casa, de música, de mulher. Fazer da mudança um cotidiano insípido até abarrotar os cérebros de alterações diárias, e colocar sob os olhos manchas escuras e entre os lábios uma proteção de toque, qualquer cera líquida que impeça o contato iminente da carne.
Um mundo variado, de cores concordantes de mutações; um formato novo de futuro, palavras novas de xingamento, torturas quase inócuas que destroem o pouco-a-pouco, que mutilam o desgosto. Mudamos de olhos com pigmentos azuis, como Jesus na sua dor profundamente azul, peito aberto às mentiras e respirando com uma dificuldade quase insana.
Mudaram o fundo da piscina, consertando as rachaduras; e a terra que ruiu sobre as casas na última enchente mudou as paredes e os utensílios domésticos, misturou tudo, como lava absorvendo o humano. O fogo transformou em penugens cinzas todo o estofado de plástico, assim se foi a tv pro saco, o retrato do avô morto, retocado de ruge e tinta vermelha no contorno da boca se foi ao encontro de todas as coisas.
A rotação incessante da mudança das coisas foi feita de velocidade. E por não termos nos atirado às águas barrentas do tempo, por inépcia, por desilusão ou cretinice, só por isso não conseguimos nos fazer mudanças puras. Todo o distanciamento que imprimimos a cada fato a ser analisado, todos os tijolos pensados friamente e dispostos com a correção do exato, as arcas anti-diluvianas envernizadas sistematicamente, tapando o fundo frágil de nossa queda; todos os nomes que inventamos para as cores foram mudando.Eu, como uma morsa ou um boi, um líquen ou um fantasma, não me reconheço em nada. Mas isso não é nem um pouco novo, só o desejo de estar totalmente em silêncio, feito um ser pré-histórico, mais, como a evolução última do desejo mais preciso: ser uma pedra.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Saga dentária 5

Em frente ao Mosteiro São Bento, fica sempre um homem, de joelhos calejados, pés tortos, sentado sobre as pernas cruzadas de modo estranho. Ele usa uma roupa suja como as calçadas e cumprimenta algumas pessoas. Como se fossem velhos conhecidos se encontrando no local de trabalho. Ali é seu local de trabalho. Sua função é ficar sentado e mostrar as feridas. Dizem que a vida assim é fácil. Eu duvido. Ele não pede dinheiro, não exige nada. Isso conforta um pouco. Não sei se isso é uma impressão da manhã, que deixa todos os corpos mais leves, já que as almas nem acordaram muito bem e não voltaram das paragens onde podem ter um mínimo de sossego.
Há olheiras; isso lá é verdade. Muitas olheiras. De noite mal dormida, de dia não terminado. A dra. Cecília tem um pique desgraçado, invejável. Vem sempre com um papo de que não pensa direito pela manhã tão cedo. Mas com toda aquela energia, a verdade é que fico mais tranqüilo. Seu piloto-automático está em ótima forma. O meu me ajuda em não pensar muito antes de abrir a boca. Pra qualquer coisa. O silêncio me domina. Converso, falo, mas ouço muito mais. Quando eu era criança, não me lembro dos dentistas serem tão prestativos e solidários ao medo que temos deles. A Cecília (ela é uma doutora, não posso me esquecer) conversa sobre assuntos engraçados, ri com o aparelho nos dentes e o que parecia terrível vai se aquietando. Mas meus músculos resistem, retesados num gesto involuntário. Uma teimosia que o corpo não renega. Fazer o quê? Já me aceitei há algum tempo; espero só que me tolerem.
As lojas estão quase todas ainda fechadas. Alguns comerciários aguardam nas portas frisadas de ferro. Uma precisa de balconista, com experiência. A espera da mulher com um casaco vermelho, tão cedo, talvez seja pelo emprego. Lembro do quentinho dos escritórios onde comecei minha vida de trabalhador. Uma sensação de que ninguém me vigiava. Ainda podia tomar um pouco dos sonhos que não terminavam, inventar mais um tanto da vida que vinha. Como o homem de gravata tomando conta do estacionamento. O café que faz fumaça, o olhar que é ponto desacordado no infinito, o cabelo engomado, tudo limpo como uma boca recém escovada.Sob o viaduto as barracas vão se animando, de ferros e lonas azuis, vão se transformando em tudo que é objeto. Depois os pés vão se confundindo. As roupas, os ombros, os joelhos, o terno preto do homem sem sapatos e só com as meias que encobrem a barra da calça. As dignidades vão se juntando. Ao meio-dia, o sol terá esquentado as moléculas e fundido tudo numa grande correria.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Saga dentária 4

Só consigo lembrar os nomes das ruas se passo com freqüência por elas e se, com a mesma freqüência, leio as placas. Na Florêncio de Abreu com a Ladeira Constituição (não vi nenhuma preposição “da”), um caminhão tenta fazer a curva para descê-la. Embaixo, parece uma espécie de mercado, mas sei que estou errado quanto a isso. O caminhão carrega um enorme container, destes de navio. As pessoas ficam olhando, desacelerando os passos. Uma mulher com o carro estacionado, destes com caçambas, vende café e bolos. Alguns se reúnem por ali, vendo o caminhão fazendo a curva. Umas letras em chinês impressas grandes no canto do vermelho-terra do container. Os bolos têm um aspecto agradável, lustrosos por cima. Não sinto o cheiro do café. Sinto o cheiro da manhã.
A cada dia o sono vai apertando meus olhos e me atrasando na cama. Acordar cedo é bom, mas dá um sono! A dra. Cecília disse que eu me acostumaria, que a cada dia ficaria menos nervoso, mais relaxado. Mas eu sou um doente mesmo. A cada dia me sinto mais nervoso. A intervenção é rápida, sem dor desta vez. O sol bate nas persianas. Uma janela deixa que vejamos o céu, que vai se tornando todo azul. As nuvens vermelhas, lindas, escorregadias como uma pincelada aleatória numa tela de linho, vão sumindo. Perco suas transformações. Aperto as mãos, os pés, suo. Tento bancar o homem, o macho, mas sei que essa coisa de saber agüentar a dor é com as mulheres. Quer dizer, sei por dizerem. Com o medo, a vida se perde um pouco. Sem o medo, torna-se totalmente vazia.
O Viaduto Santa Ifigênia é amarelo. Com gradeado de ferro. A impressão é que camadas líquidas de ferro foram sendo derramadas, dia a dia, engrossando as voltas amarelas, os meandros cobertos da fuligem escura de tudo quanto é fumaça. No final do viaduto, atravessando um conjunto de ruas que se encontram, há uma igreja. Parece feita de pedra, pichada por fora com letras de descasos, talvez revoltadas pela beleza incompreendida. Há avisos de dízimos, apelos feitos no computador e impressos num sulfite já um pouco surrado. Os santos são mais tímidos, cabeças baixas, roupas mais simples. Sinto a força da opressão no peito.
Volto para o viaduto. Fico olhando um pouco o rapaz com três tampinhas e uma bolinha preta que vai pedindo as apostas rapidamente. Presto atenção e acerto onde a bolinha está umas quatro vezes. Mas eu sei que ele é muito mais esperto e não aposto nada. O dinheiro está envolvido, mas não é o que me interessa.
A Praça da Sé me espera. Espera todos, todos os dias. Uma cúpula de um verde brônzeo se ergue por trás. Não gosto de parar assim à toa. Não enxergo direito por onde ela cresce. Sou um bicho e preciso aguardar os botes da escada rolante, do aperto de ombros. Os rostos não condizem com o fresco ventilar do dia.
É uma pena termos nos perdido tanto!

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Saga dentária 3

A sorte é que não está fazendo frio. O azar é que tem muita gente. Em São Paulo e no mundo. Sorte das pessoas e dos cachorros, que se estendem num lugar qualquer, rua ou calçada, iluminados. Gente, muita gente, e alguma tristeza. Talvez hoje seja apreensão. Um outro dia será tristeza. Quando se caminha, olha-se pra frente, destino apontado, olhos vendados e pés com gps. Mas quando se está no metrô e não se tem um livro e não dá mais pra ficar lendo os lembretes de compras de materiais e diplomas universitários, tem que se encarar os olhos cansados, a pele seca, as mãos apertadas entre os dedos, entre uma sacola ou três. Todos cansados do trabalho.
Nunca tive muita certeza do trabalho enobrecer alguém. Minha mãe dizia que até ser gari é digno. Mas confio mais no “colocar-se no seu devido lugar”. O poder que mantém os garis e os presidentes, os industriais e os mendigos, o dinheiro e a preguiça. A dignidade não está no trabalho, está no homem, na pessoa que a carrega. Nunca quis contrariar muito a minha mãe, mas, no silêncio, fico deste meu lado.
Fiquei confuso hoje, com tanta gente, logo cedinho, nas ruas. Metrô parado (uma greve que entra pelos intestinos dos pobres), carros liberados, o suor atrasado. E a pedra de Sísifo vai sendo arrastada e rolada, enquanto os deuses riem do filho bastardo e desobediente. Hoje quem me atendeu foi a dra. Cecília. Periodontista. Gengiva, limpeza e dá-lhe arrancar-me a alma em cada estocada e pingos de sangue. Essa coisa de ter dente ta me dando no saco. Dizem que já há vacina para a cárie. Mas e o dinheiro? E a Cecília? E eu nem posso me esconder do meu medo. É ultrassom, pazinhas de ferro, agulhas, sugadores, gazes e algodões. Mas há o dinheiro, e eu não posso nada contra ele. Não fosse a disposição destas mulheres!
Sorte têm os cachorros, mais bonitos que os santos assustadores pregados nas paredes. Defendem tudo o que podem e geralmente têm os dentes bem feitos e fortes. Não empurram pedra e discutem só o necessário. E tomam sol quando precisam do sol, e água quando precisam de água. Não reclamam das cáries e só ficam tristes quando estão presos. E pensar nos homens livres que não conseguem um puto de felicidade! E haja celulares de último tipo pra tapar com vento o vazio das conversas e distanciar as salivas e adormecer as palavras.Mas como pode ser feliz uma pessoa que tem dentes?

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Saga dentária 2

Nunca vou ter uma boca perfeita. A perfeição é um desejo. Só. Ela nunca chega. É como a tal da utopia, inalcansável. Mas necessária pro caminho. Também tem muita gente que liga o “que-se-fôda” e manda à merda a perfeição. Tudo vai mudando mesmo. Nesse roda, nesses giros, lá se vão as perfeições, sem saber pra onde.
Seis e meia da manhã, no inverno, apesar do calor que faz, o sol só apareceu de forma indireta, mudando as cores do céu, enviando uma ou outra ondinha de um morno que lembra a cama. Mas o dia lindo, mesmo com a presença narcótica do sono, faz a gente acordar. Pelo menos estar de olhos abertos com uma sensação de sonho.
A entrada do prédio onde fica o consultório odontológico é estreita. Tudo é estreito no Centro de São Paulo. E as paredes têm um tom acinzentado, como se houvesse sujeira nas ranhuras, nos rejuntes dos azulejos, nas bordinhas dos vidros onde fica aquela massinha para grudá-los. Tenho a impressão de quem provoca isso é a história.
Milhões delas, anos e anos delas. Impressionam, dão medo. Penso que a história é suja. Mas também acho a sujeira bela, assim como o medo. Essa coisa de ser limpinho é neurose do demasiado humano, é um medo da morte, dos vermes. Mas tudo isso não é também a vida?
A Clau perfura meu dente. Ela é bonita e isso me tranqüiliza. Não sinto nada por causa da anestesia. Ela enfia uns ferrinhos até o fundo, procurando meu cérebro. Me disseram que eu tenho a raiz do dente muito profunda. Eu penso nas raízes e em Araraquara. O que adianta ter dentes de raízes profundas se me tornei flutuante? Tão perdido.
Não doeu nada a intervenção da Clau. Sinto vontade de vomitar ao tirar a radiografia. Uma, duas, cinco vezes. Acho que ela desistiu. Tomara que não sinta raiva de mim. Uma dentista como inimiga é um horror.
Saio pelas ruas do Centro. Já tá todo lotado. Os camelôs se preparam. DVDs no chão, jogos de azar, grana na mão, carrinhos de recolher entulhos e cachorros protegendo os donos da rua. Alguns dormem no chão, sob cobertores. Debaixo de um, uma garota, tatuada, bonita, ao lado de um garoto que eu não vejo o rosto, só as pernas lisas como uma criança gigantesca.
E depois tem as igrejas.

Saga dentária 1

Amanhã começa minha saga em busca da boca perfeita, como o cálice sagrado. Terei que ser essa espécie de herói de nada e de ninguém, percorrendo as sujeiras do Centro de São Paulo, com gatos escondidos em sacos de lixo pretos e talvez umas criancinhas encolhidas entre um degrau ou outro, ou mesmo na sarjeta, de onde escorre um fio fino e escuro de asfalto, chorume, plásticos - ali, com certeza, tem mijo de muita gente e animal. Mas o cheiro é vigiado pelo enorme São Bento de barbas severas e olhar ameaçador. Fico olhando pensando que ele é Netuno, com um tridente na mão. A igreja é bela porque assusta; talvez seja, por isso, sublime. Suscita nosso complexo de Estocolmo. Deus, o carrasco torturador.Mas a dentista acorda com o sol. No consultório, a luz amarela do dia ilumina as mulheres de branco, limpas, com toucas translúcidas e sorrisos. Como é bom sorriso em consultórios dentários, um contraste com a aceleração da broca de diamante, com jatos de ar e água, e luzes azuis que esquentam e cheiro de queimado e flúor. São Bento me conforta. A surra iminente que me prepara, depois talvez da morte. Sei que doerá mais que o dente e carregarei uma eternidade, sob aquele olhar, a enorme pedra deixada por Sísifo.Depois eu saio à rua, lá pelas 8 horas. O sol vai estar baixo e o vento virgem e friozinho vai me dar mais vida. Sei que vou olhar cada canto das ruas movimentadas, um pouco os rostos dessa mesma gente que carrega a mesma pedra.Amanhã vai ser um dia daqueles. Vou esperar o morno conforto do tempo passado na cadeira de boca aberta. Depois eu pego o metrô e vou trabalhar.