quarta-feira, 3 de outubro de 2007

4.0 6

O que eu mais estranhei não foi propriamente o meu pai ter morrido. Ele estava lá em Fortaleza com seu pulmão arfando feito uma sanfona mais que usada. Judiou muito dele. Não havia panos molhados que dessem conta daquele cheiro forte de substâncias químicas queimadas. O enfisema, que ele chamava de fimose, já dera provas de sua força havia um bom tempo. Pega, tira ele do apartamento apertado e sem sol, tira dos mofos e das baratas, amontoa os livros, a coleção completa do Dostoievski em papel bíblia que se perdeu. Ele havia prometido para meu irmão e eu senti um ciúme desgraçado. Meu irmão nem terminara “O idiota” – nem terminaria, o livro está comigo até hoje – porque iria ler a obra completa? Televisão, duas geladeiras, fogão grande e uma sujeira desgraçada.
Há anos eu pensava que chegaria a notícia. Eu me afastava. E hoje me pergunto do que me afastava? O que me empurrava para longe dele? Talvez sua morte me afastasse mais do que sua vida repleta de sonhos, talvez a notícia inevitável me afastava de seus cabelos bem branquinhos, dos dentes pendurados no final da vida, silvando em algumas sílabas.
Ele foi enterrado em Arujá, aqui perto de São Paulo. Um campo aberto, alto, sem cruzes, tudo verde. O dia estava chuvoso, uma água fina caía e descaía, abria um azulzinho aqui, uma nuvem rala que se esgarçava dando a impressão de sumir. Foi tudo rápido. Pouca gente, pouca família.
Voltei para casa, passei numa locadora. Disse à garota que me atendeu que eu acabava de voltar do enterro. Ela ficou um pouco perplexa. Eu lá, escolhendo um filme. Nada dramático, algo mais leve, uma comédia à la Woody Allen me faria bem. Eu não sentia nada. Não sabia direito o que deveria sentir. Tempo chuvoso, filme de locadora, alguma comida na geladeira. Meu cachorro pulava em mim sem saber de nada e eu beijei suas orelhas muitas vezes.
Como eu disse, não estranhei a morte de meu pai. Estranhei foi o urubu que entrou na garagem de casa e de lá não saía por nada. Joguei água. Ele voltou. Espantei com a vassoura. Ele voltou. Deixei que ficasse. Empoleirou-se no canto de uma floreira de concreto. Não conseguia voar, precisava de abrigo até morrer, talvez. Estava doente, era visível. Todo urubu tem lá seu jeito desengonçado, meio manco, pulando, mas este tinha as penas ensebadas de doença. E não tinha o menor medo do cachorro, que chegava de mansinho e saía correndo assustado de um tipo de berro que o pássaro dava, rascante, gutural, única força que lhe sobrava.
No dia do enterro de meu pai, um urubu pousou em minha casa, dormiu a noite toda sob minha janela, doente das asas, filtrando alguma dor. Não entendi o recado de tanta insistência. Nunca um animal desconhecido havia sido tão solidário comigo.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

4.0 5

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Minha poesia favorita. Tudo era revestido de uma película de proteção. Ficar quieto, obediente, não falar o que não se devia aos adultos. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. De criança, a gente se virava, falando palavrões bem gordos, e corríamos em campos de futebol improvisados, no meio da poeira e do mato, com carrapichos grudados nas meias. Ficávamos horas – o que eram as horas? – tentando alcançar o córrego, cortando a pele em capim-gordura. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Heroísmos bem próximos, íntimos, como pular um muro alto ou fugir de um cachorro, roubar abacates e não olhar pra baixo. Eu tinha lá os meus medos. Medos de todos os alertas dados pelos meus poros. Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo. E íamos aos becos escuros, com carros estacionados no silêncio, gritar para assustar os namorados. Jurávamos ter visto uma felação. Um chupando o outro. Era assim que eu não conseguia imaginar como era possível, como se enfiava aquele troço no outro troço. Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu arrotava a arrogância de saber de tudo um pouco. Pelo primo mais velho. E não sabia nada. Meus deuses eram tão gentes normais que respondiam com grunhidos e me afastavam com as mãos. Na escola, havia os adultos mandando, vigiando o portão principal. Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, As mães diziam que podiam nos castigar fosse o caso de não aprendermos a nos comportar. Alguns professores mais velhos batiam nos nós dos dedos quando da desatenção nossa. Vestígios de algo que se acabaria num piscar. Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, A escola dos professores, o cheiro da merenda, leite em pó e pão e arroz doce. Quem ficava na fila? E era a fila dos menores? E crescíamos tanto em tão rápido tempo! E mais filas que separavam meninos e meninas. E elas riam tanto e eram altas e tinham a volúpia que eu nunca entendia. Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Depois, as aulas. Falar corretamente, calcular, pensar rápido, obedecer. A tarefa pronta para ir à lousa, giz branco, quando quando uma cor azul – que nunca escrevia bem por mais bela que fosse – um amarelo apagado, um vermelho roseado e fraco. Que tenho sofrido enxovalhos e calado, É preciso ter coragem na vida, nesta vida de meninas e meninos que gritam, que explodem seus corações em todos os segundos. Tínhamos que fazer direito. A exposição na frente de toda a sala nos revelava. Fraqueza, desistência, algum desespero que apontava o dedo ditando regras. Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Comportar-se, ser limpo, estes cadernos sujos de dedos sujos. A força ali era ser inteligente. A força no recreio era você ser simplesmente forte. Algum amigo mais ríspido, quieto e troncudo o protegeria. Ou lhe dariam um pedaço de lanche que sua mãe não podia fazer. Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, O menino cujo pai era bravo, diziam da pobreza que causa raiva sobre os filhos, de olhos sempre quase fechados por causa do cenho franzido. Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, E toda criança não seria então um pouco alegre? E era às vezes, mas nunca quando enxugava os olhos. Zagueiro de primeira, pelo corpo forte, as mãos abertas como um lavrador. Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Há presságios na vida, essa coisa de destino que começa a feder desde cedo. Meu amigo nem muito amigo, forte e sem pensar, o queixo duro, os lábios grossos como se lhes faltasse água, e poder ficar um pouco com a cabeça baixa diante da lousa, escura como um lago podre. Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Os olhos mirando o fora, sempre o ir-se de algum lugar. Para fora da possibilidade do soco; No meu calar de boca e no quieto furor, passivo e contido, do menino plantado de cara no verde musgo, abriu-se então o mundo na perversidade mais silenciosa. Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Não saber fazer, calcular, ler com as vírgulas. O que merece um homem-menino, de vez em quando, quando convier às crenças: homem ou menino. Olhar para as mãos de lavrador. Não sentir pena, ódio de não revidar o cuspe da vida. Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Via que a educação podia ser feita à força. Pá!!! Não há nada de mal levar um tapão na nuca, né não?!, amigo menino quase homem lavrador. Foi o que meu soluço pediu no momento. Fica assim estagnado... Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Não saia por aí do meu peito que você não é suspiro, é grito sem nenhuma vogal. Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, Não há som. Como faz um ferro perfurando o crânio? Onomatopéias desnecessárias. Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... E eu pedia cá pra mim não chore, não chore. A boca dele tremia e era um cãozinho tão frágil no meio de olhos vendados, era aqueles passarinhos feios e depenados que caíam de um monte de palha que chamavam ninho. Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Seus olhos começaram a irrigar os lábios grossos e sedentos. Eu podia achar que eram rachados de sol, que rachavam de uma escassez de uma coisa que molha que não é líquida, que não se enxerga. Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; O professor mantinha um quê de respeito e derrota. Mantinha-se como um poste que ergue a mão e dá um tapa na nuca. Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! E havia uma história toda que eram formigas passeando e fazendo tuneizinhos no seu peito de professor. É preciso ser duro, ele diria se pudesse e não fossem tão frágeis suas retinas de cristal. Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quieto diante do problema de matemática. As mães diziam para dar corretivos corpóreos. Assim como uma chinelada macia elas queriam dizer? Não. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Podia ser o que considerassem, assinar um livro preto, ir para fora da sala, ficar parado no recreio. Mas a mão humana tem vontades próprias. Ó principes, meus irmãos, Diziam que podiam fazer as vezes de carrasco. No seu sangue, o professor sabia o que já tinha sido. Arre, estou farto de semideuses! E também eram coisas de destino dele que cheiravam muitas vezes a queimado. Os pêlos longos do braço, a assinatura veloz e potente que treinava por cima dos exercícios. Onde é que há gente no mundo? Em todo espaço e tempo ele se encontrava com o menino homem lavrador de lábios ressequidos e chacoalhava a cabeça. Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? Não, não faço parte disso. É por acaso uma escolha, o tempo, a cidade, os filhos? Poderão as mulheres não os terem amado, E todos os sonhos... Por acaso eu me encontro aqui, com mão firme a guiar meninos e meninas, por acaso eu sei que a minha letra é bonita e minha assinatura é uma marca. Marco pois então sobre os exercícios. Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! Eu não podia ler os pensamentos. Um homem ereto, um menino cabisbaixo. Tudo vai passar. Água com açúcar, arrependimentos. Eu vou aprender. E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, Aprender a me portar. Não precisa me bater. Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Vivo o bastante para querer tudo isso também, postes firmes, mãos na nuca, olhos de vidro. Se for preciso eu fujo. Eu, que venho sido vil, literalmente vil, Tenho conseguido ser um homem. Fico feliz com minha poesia favorita. Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

* Os versos em itálico são a reprodução do “Poema em linha reta”, de Fernando Pessoa.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

4.0 4

Foi quando o mundo me parecia completo. O sexo não era algo para a carne, alimentava mais que isso em mim. O desejo se manifestava em situações grandiosas, sublimes, ser visto como um homem importante, pelas idéias, principalmente. Eu não era nem um pouco ambicioso, o que carrego até hoje e que me anuncia uma vasta derrota a ser amargada mais tarde, quando tudo não passar de miragens que se formaram para eu continuar vivo.
Até à igreja eu ia para agradar minha pequena namorada. Ela já tinha seios formados, que no meu parecer de agora deviam ser grandes e lindos. Éramos adolescentes; eu, dois anos mais velho; ela, com corpo já de mulher. Lembro dos homens olhando-a com fome. Ela fazia sucesso na rua onde morava e eu era o cara que pegava a menina mais gostosa do bairro. Mas isso eu só vim saber mais tarde, quando já não era um adolescente.
Entrava na igreja para não ficar muito longe dela. Sentia-me mal, com freqüência, naquela construção moderna anos 70, redonda... Só me lembro que era redonda a igreja. Não me lembro dos jesuses, dos santos, do sangue, do terror sendo amargado na cruz com vinagre e lanças pontiagudas. Não tinha a demonstração da piedade que os santos têm nas igrejas mais convencionais, escuras e de um cheiro secular. Não me lembro de quadros nem de púlpito. O padre pregava a moral cristã anti-sexo. Eu passava mal.
Ela me dava um seio para eu acariciar. O pecado se mostrava como um monstro maravilhoso no qual estava inclinado a deitar minha cabeça e me consolar. Um dia com um seio numa das mãos, numa rua arborizada à noite, nas sombras da devassidão pueril. Nem sei o quanto eu tinha de porra nutrida para inundá-la, nem me lembro de ficar de pau duro nestas horas. Era como uma religião que eu temia e adorava, que ora me impulsionava para frente, para dentro dela – eu tinha que estar dentro dela, com meu pinto, com seus líquidos, sua pele que pulsava esticada e ficava transparente com veinhas azuladas no contorno do bico –, ora me derrubava com a razão, com meus estudos, com minha educação. Adoeci.
E permaneci doente até o próximo pegar nos seios dela, que me oferecia sem pudor, como um pecado necessário. Havia a aura da religiosidade esmagando meu cérebro, o que estava certo e errado por séculos não podia se mostrar tão assim indiferente nas calçadas por onde eu andava com ela e queria porque queria enfiar minha mão na blusa, passar o sutiã, encontrar quentinho aquele monte de carne macia e dura, a pele frágil dos bicos como se fossem lábios sensíveis e que eu beijaria, se ela deixasse, e que eu esmagaria com as pontas dos dedos ou arrancaria com minha boca. Se ela deixasse.
Até eu vê-la saindo de casa dentro do carro de um cara bem mais velho. E eu passei a acreditar nas besteiras vigentes da economia, da sociedade, tudo porque eu não tinha um carro, mas uma bicicleta da qual nem me lembro a cor.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

4.0 3

Quando eu abri, o porta-luvas estava cheio de cocaína.
Meu pai contava as histórias. Eu ouvia de olhos assustados, principalmente essas das aventuras que ele provavelmente aumentava. Como todo contador de histórias, sonhador, ele ia pela resposta do olhar de quem ouvia. Cada vez era diferente. Às vezes esquecia que havia contado alguma coisa e dizia que nunca havia passado por aquilo.
Os caras tiraram a gente do fusquinha. Ficamos com a metralhadora na cabeça, enquanto um já estava abrindo o porta-luvas.
Eu acreditava em tudo. Porque a crença tem desses mistérios. Também gostava das poesias que ele declamava. Navio Negreiro, I Juca Pirama, umas de um tal Judas Isgorogota.
É um pseudônimo.
Eu pedia que me falasse de uma que tinha um cara que saía de casa com o sol ainda se levantando. Ele ia conversando com o sol e lhe pedindo que dissesse às pessoas porque havia partido. Dizia à mãe, ao pai, aos amigos, e quando chegava na noiva que deixava, ele pedia só para dizer que estava bem. Aquilo me apertava. Sentia a falta que carregava, o silêncio que ia junto com ele. Eu pensava que o amor era aquilo mesmo, aquelas coisas que não combinavam, as palavras que nunca iriam ser ditas, os gestos que atrapalhavam toda a manifestação do amor, a perda que ficaria como uma marca nas ruas por onde nunca caminharíamos.
A gente tava olhando pra baixo do viaduto. Eu pensava “daqui eu caio lá embaixo. Eles nem precisam se preocupar. Uma bala na cabeça e eu me estatelo no asfalto”. Foi ali no Viaduto do Chá.
Nas histórias de meu pai eu nem sentia os tempos de repressão política. A polícia era a polícia, e os que estavam presos eram presos, não pensava em bandidos, mas em algo que haviam feito de mal. Essas coisas não me atingiam. Se me diziam que eu não podia falar certa coisa, eu não falava. Minha mãe pedia para não dizer palavrões porque atraía espíritos ruins. Eu não dizia. Não comer tanto doce na festa de aniversário. Eu não comia. Não fazer feio, respeitar os mais velhos, me comportar na sala de aula, me levantar quando um professor entrava. Tudo perfeito para um perfeito paumandado. E eu cresci assim, como um paumandado. Acreditando nas histórias todas que me contavam, nas estruturas todas que eu teria que sustentar. Os mais velhos, os patrões, os professores. Nasci em meio a um tempo sujo e negro, um tempo de rebeliões, revoluções. Me tranquei na quietude da obediência. Fui um filho de minha terra destes bem adestrados.
Aí eu pensei “É agora que esses filhodasputa nos matam”. O soldado tava abrindo o porta-luvas. Pedi licença. “Põe essa mão na cabeça, põe essa mão na cabeça”. Os caras gritaram comigo porque eu estava levando a mão ao bolso do paletó. Eu precisava mostrar que a gente era jornalista, tirar minha identificação e mostrar pra eles. Eu ia morrer mesmo. “Péra lá, péra lá! Eu só quero mostrar uma coisa. Olha” eles viram que eu pegava o documento. O soldado com a mão no porta-luvas cheio de cocaína do fusquinha. Eles viram que a gente era do Estadão. O capitão mandou que o soldado esperasse um pouco. “Cês tão brincando com a gente? Por que fugiram, caralho? Sabia que podiam ter morrido? Cês tão loucos? Vai, vai, vão pra casa. Mas vão com calma”.
Lógico, meu pai estava ali, contando mais uma história. Não havia morrido, não havia se estatelado no chão embaixo do Viaduto do Chá com uma bala na cabeça. Tudo não tinha passado de uma história de aventura que eu adorava. Todas as histórias me fascinavam e a vida... ia assim, meio de lado, passando ao longe das coisas físicas, ficando nos versos lindos de amor, no heroísmo das invenções.
“Porra, Meninão! Tá louco? Por que essa merda toda aí? Por que cê correu da polícia?” E o Meninão ria. O Meninão só ria.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

4.0 2

Vez ou outra minha mãe nos levava ao dentista. Saíamos de Santo Amaro, da Vila Zelinda, e pegávamos um ônibus até o Centro. Meu pai já trabalhava no Estadão e num prédio cheio de repartições ficava o dentista. Eu não gostava nem um pouco daquilo. O barulho, o cheiro de tinta, as pessoas maiores que eu. Me sentia oprimido. Como se estivesse nestes fossos escuros que via nas ruas, ao lado de prédios; o que era para ser uma espécie de espelho d’água ficava lá, largado aos mosquitos, à sujeira mais suja dos que sujavam tudo, águas cercadas de gradinhas robustas e enferrujadas, e sujas.
Quando acabava a tortura do dentista – pode ser que nem fosse tanto, não me lembro direito se ganhávamos algum doce (santa incoerência, bela) – vinha a melhor parte. Minha mãe nos conduzia até um bar qualquer onde se vendiam coxinhas cremosas. Eram coxas de galinha com uma massa cremosa de farinha em volta. Era um presente pelos momentos raros de irmos ao Centro, ao dentista. Eu me enchia de gordura e segurava a mão de minha mãe. Uma imagem da qual não me lembro mas que invento com meu corpo. É ele quem me diz “era assim, era assim”. Minha mãe bem mais nova, de vestido (quais seriam as cores, os tecidos, as estampas? Eu não me lembro), esperando na sala ao lado.
Hoje eu penso que com cinco filhos pra criar ela vivia meio triste e só. Às vezes brigava com a gente numa impaciência de vida, pensasse se seria isso mesmo o que estava predestinado, pensasse em destino e resignação, no meu pai sumido por dias, meses, no meu pai bebendo a cerveja, fumando os cigarros pela casa. Ela colocava pano úmido nas frestas das portas para que a fumaça não nos atingisse. Mas eu gostava do cheiro da fumaça morta, do cheiro que o corpo do meu pai deixava no quarto. Eu nunca me perguntava porque meu pai dormia numa cama qualquer, porque ele chegava quando a gente já se levantava, porque da sua boca grossa não vinha o cheiro das salivas mortas, mas sim o cheiro que ficava nos cômodos, de bebida amanhecida, cigarro amanhecido, sonhos amanhecidos.
E por estar sempre perto, o cheiro de minha mãe estava sempre em mim. Eu não sentia que pudesse ser um outro odor, estrangeiro feito o do meu pai, eu não pensava que ela sofria. Nem quando nos pegou (eu e meu irmão mais novo) pelas mãos e nos levou até a imobiliária. Talvez ela tivesse chorado quando o homem grande que a olhava com ternura disse que não dava mais para segurar o aluguel. Nove meses de atraso. Isso eu me lembro. Tudo acima de mim, os diálogos, os olhos marejados, a calvície do homem, a alça do vestido de minha mãe, nove meses de atraso de aluguel.Meu coração só conhecia o futuro e eu o apertava entre as costelas, mirrado, medroso. Eu penso que ela poderia ficar um pouco triste com tanto filho pra criar, com tanto marido ausente, tudo misturado, como a vida, como fosse possível rir e chorar num só ponto do dia, num só ponto de passado e do presente que ia ia ia ia...

terça-feira, 4 de setembro de 2007

4.0

Eu me lembro de algumas coisas distorcidas. O sol limpo da tarde, uma moça que nos acompanhava pelas ruas, talvez zombando da gente pequena que éramos, talvez guardando com sinceridade alguma integridade infantil que se soltava toda vez que tirávamos as mãos das dela ou quando eu corria covarde de um lado pro outro sem me afastar.
As casas ficavam fechadas pelo calor. Acho que as crianças de colo dormiam nestas horas de começo de tarde. Focos de fumaça se levantavam aqui e ali num terreno baldio. Queimavam lixo, papel higiênico usado, plásticos, tudo que tivesse sido jogado fora. Minha tia tinha um quintal grande, mal tratado, onde eu assassinava folhas e formigas e depois as enterrava, chorando, pensando na eternidade delas, na minha, na minha vida pouca guiada por espíritos de toda ordem. Podia fazer cruzes de palitinhos de fósforo (o mesmo fósforo com o qual eu queimava as formigas, os mesmos palitos com que eu furava as folhas).
Esse cheiro de queimado está em mim até hoje. Não adianta afastar o nariz ou mudar de rua, ele queima e solta as fuligens, como as canas cortadas em labaredas gigantescas. Eu pegava a bicicleta e seguia por estes cheiros, o de laranja também, nos finais de tarde de verão. Morno, era um cheiro que impregnava toda a cidade. A lua surgia por trás da fábrica de suco de laranja, muitas vezes tão enorme que assustava. Eu percebia que gritava por dentro, pelo sublime, pelo medo de tanta maravilha. Seguia em direção da fábrica, da lua, do cheiro de laranja. Chegava até o córrego sujo, mas onde, ainda, por diversão e ignorância, se pescavam lambaris desnutridos.
Na casa de minha tia, neste mesmo quintal descuidado, havia também um galinheiro. Ela torcia o pescoço de uma ou outra quando íamos almoçar no domingo. Eu não gostava muito, a carne era dura e parecia nadar num molho oleoso de tomate e especiarias. A avó da minha prima, uma velha senhora de uns duzentos anos, com o andar vagaroso, as pernas abertas como se tivesse andado a cavalo a vida inteira, feridas nos braços, o cenho constantemente franzido, dormia no sofá da sala. Não podíamos fazer um barulhinho sequer, por medo mais do que respeito. Os velhos da minha infância eram carrancudos e impacientes e nunca me ensinaram nada.
Eu ia pro quintal, pro meio dos pés de mamona, matar formigas e folhas. Depois eu chorava um prenúncio de começo de vida. Foram os melhores momentos e no entanto eu compartilhava com o silêncio minhas delícias. Não era preciso dizer palavras, só obedecer aos mais velhos e esperar que chegasse o momento.
Acho que chegou.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Mutações

As coisas haviam mudado. E qual foi o tempo na vida em que não haviam mudado? Sempre sentindo justamente o tempo, como algo que passa sem que façamos parte, como um rio onde não mergulhamos, nem a pau!, por medo, receio, miséria de espírito. E os que se jogaram nas águas que cairiam vertiginosamente de alturas impossíveis, foram, junto com a morte, escorrendo em esquecimento e inaptidão de viver.
E havia também esta mudança de nossa própria vida. Mudar de carro, de casa, de música, de mulher. Fazer da mudança um cotidiano insípido até abarrotar os cérebros de alterações diárias, e colocar sob os olhos manchas escuras e entre os lábios uma proteção de toque, qualquer cera líquida que impeça o contato iminente da carne.
Um mundo variado, de cores concordantes de mutações; um formato novo de futuro, palavras novas de xingamento, torturas quase inócuas que destroem o pouco-a-pouco, que mutilam o desgosto. Mudamos de olhos com pigmentos azuis, como Jesus na sua dor profundamente azul, peito aberto às mentiras e respirando com uma dificuldade quase insana.
Mudaram o fundo da piscina, consertando as rachaduras; e a terra que ruiu sobre as casas na última enchente mudou as paredes e os utensílios domésticos, misturou tudo, como lava absorvendo o humano. O fogo transformou em penugens cinzas todo o estofado de plástico, assim se foi a tv pro saco, o retrato do avô morto, retocado de ruge e tinta vermelha no contorno da boca se foi ao encontro de todas as coisas.
A rotação incessante da mudança das coisas foi feita de velocidade. E por não termos nos atirado às águas barrentas do tempo, por inépcia, por desilusão ou cretinice, só por isso não conseguimos nos fazer mudanças puras. Todo o distanciamento que imprimimos a cada fato a ser analisado, todos os tijolos pensados friamente e dispostos com a correção do exato, as arcas anti-diluvianas envernizadas sistematicamente, tapando o fundo frágil de nossa queda; todos os nomes que inventamos para as cores foram mudando.Eu, como uma morsa ou um boi, um líquen ou um fantasma, não me reconheço em nada. Mas isso não é nem um pouco novo, só o desejo de estar totalmente em silêncio, feito um ser pré-histórico, mais, como a evolução última do desejo mais preciso: ser uma pedra.